Fudeu
Ok. O certo é
fodeu, mas achamos que assim você entenderia o quanto estamos
“fudidos”.
Edição: Bruno Tortuga Nogueira

Sabe a praia de que você mais gosta?
As florestas cheias de espécies
exóticas, aquela brisa fresca do outono?
As novidades de Londres e Nova
York, os restaurantes cinco estrelas, a pousada na praia do
espelho, seu cartão de credito internacional? Seus banhos de
20 minutos, carro do ano, o ar-condicionado do seu emprego?
Sabe seu emprego? O mundo que você conhece bem? Sentimos informar,
mas está com os dias contados.
Um
passado demasiado bom dá-nos cabo do futuro. Espera-se o pior.
Miguel Esteves Cardoso
Foi divertido, não foi? O fim do século 20, as delícias e o
conforto do que se chamou de "auge da civilização capitalista".
Estávamos no topo, erguidos pelo esforço de mil gerações. E,
lá no alto, muitos pediram calma, avisaram alarmados que do
topo ninguém passa. Mas a humanidade estava muito ocupada desfrutando
das benesses de estar lá em cima para entender que ir além,
que acelerar o passo, significava descer ladeira abaixo. Aconteceu.
Estamos descendo.
O clima já mudou, e 2005 vai
ser o ano mais quente de todos os tempos. Aí que, em 2030, dois
terços da humanidade sofrerão de sede. A terra está envenenada
acreditam que vivemos uma era de extinção em massa - a primeira
desde que anos. O estrago está feito. E vai ficar pior.
Daqui a cem anos as pessoas vão
olhar perplexas para nossa época. Um te que condenou o mundo
a um inverno desgraçado, interminável. As pessoas dos dez que
extinguiu a maioria das espécies do planeta, que secou a água
doce, que submergiu cidades inteiras, que quebrou em poucas
décadas o equilíbrio que a natureza levou milhões de anos para
estabelecer. Nossos netos e bisnetos não vão entender como não
enxergamos o óbvio: que crescimento econômico não é mais importante
que um mais fundamentais que a felicidade. E vão olhar para
trás atônitos, já que a finco hostil, sujo e perigoso.
Muito a mudar, nada a fazer.
No início do ano, em porto alegre,
o 5° fórum social mundial arrastou mais "outro mundo é possível".
Foram mais de 2000 palestras e atividades, incontáveis passeatas
e manifestos para propor e exigir mudanças na mecânica do mundo.
Quatro dias depois, os principais nomes do evento – gente do
calibre de José Saramago, Eduardo Galliano e Danielle Mitterrand
– assinaram uma carta com 12 reivindicações principais. Democratizar
a onu, preservar a água, respeitar os povos, garantir liberdade,
saúde e felicidade, acabar com as injustiças e o abuso ao planeta.
Quem vai se opor? Mas, nem na carta nem em nenhuma palestra
que a TRIP tenha participado, se falou em como isso pode ser
feito. Atrás da grande festa que virou o fórum – com adolescentes
dividindo o banho, a barraca, o beck – havia uma tragédia silenciosa,
um consenso não declarado de que o mundo está, irreversivelmente,
ferrado. E que não há uma forma concreta de darmos meia-volta.
E, quando as milhares de barracas
foram recolhidas do acampamento dito “auto-sustentável”, a grama
estava devastada, enxames gigantescos de libélulas não tinham
mais onde morar, centenas de jovens voltavam para casa revoltados
pelos assaltos sistemáticos às barracas, e o cheiro de urina
e fezes deixava claro que, se aquela aglomeração durasse mais
alguns dias, um verdadeiro desastre ecológico aconteceria ás
margens do rio Guaíba. Nem no fórum social outro mundo é possível.
Este especial de 16 páginas traz
um apanhado de informações recentes e projeções dos mais respeitados
órgãos de pesquisa do mundo. Também entrevistamos quem vem dedicando
a vida a imaginar o que nos espera. Pra onde se olha, só há
uma certeza: o mal está feito. Resta agora saber o tamanho do
estrago. Se você acha este debate baixo-astral demais, resta
um consolo: se este mundo aqui acabar, pelos menos você vai
testemunhar.
O
estrago tá feito...
1.
Superpopulação: em 1950, éramos 2,5 bilhões de pessoas na terra.
Hoje, somos mais de 6 bilhões.
2. Calor: a
temperatura da média do planeta hoje, de 15ºc, é 0,6ºc mais
alta do que há cem anos. Em fevereiro, a nasa anunciou que 2005
será o ano mais quente desde que a medição começou a ser feita,
há 150 anos.
3. Poluição:
mais de 125 milhões de pessoas vivem em cidades com níveis intoleráveis
de poluição do ar.
4. Ar irrespirável:
de 1950 para cá, o consumo de gás natural, carvão e petróleo
aumentou cinco vezes. Isso fez o nível de dióxido de carbono
(maior responsável pelo efeito estufa) atingir um recorde: 376
partes por milhão, o maior índice dos últimos 20 milhões de
anos.
5. Chuva ácida:
a Europa já perdeu 22% de suas florestas devido às chuva ácida
– resultado da presença excessiva de poluentes na atmosfera.
6. Desertificação:
a desertificação atinge 36 milhões de km2, ou 255 do planeta.
Um bilhão de pessoas já são afetadas pela degradação do solo.
7. Desmatamento:
metade das florestas do planeta já foi desmatada e um terço
do que sobrou corre risco de desmatamento. A demanda por madeira
é hoje duas vezes maior do que em 1950. As florestas tropicais
estão desaparecendo na proporção de 140 mil km2 por anos, área
equivalente ao estado do Amapá. Zonas alagadas, como pantanais
e manguezais, diminuíram 50% no último século.
8. Animais extintos:
cerca de 25% dos mamíferos do planeta, 12% dos pássaros, 25%
dos anfíbios e 30% dos peixes estão em risco de extinção.
9. Fome: mais
de 800 milhões de pessoas vão se deitar todas as noites com
fome. E cerca de 1 bilhão vivem hoje com menos de UU$1 por dia.
10. Miséria
urbana: hoje, 16 das 20 maiores cidades do mundo (com mais de
10 milhões de habitantes) ficam em países pobres. Cerca de 1
bilhão de pessoas vivem em favelas.
11. Engarrafamentos:
estudo feito pela onu em 75 áreas metropolitanas do planeta
mostra que os congestionamentos custam UU$8 bilhões ao ano em
desperdício de combustível e causam 3,5 bilhões de horas perdidas.
12. Lixo: hoje,
produzimos 500 milhões de toneladas de lixo tóxico por ano –
90% disso vem de países industrializados. Todo ano, 5 milhões
de pessoas morrem de doenças contraídas pelo armazenamento inadequado
de lixo.
13. Energia:
a capacidade de sustentação da terra já foi ultrapassada em
mais de 20%. Ou seja, estamos usando 20% de recursos naturais
a mais do que o planeta é capaz de repor.
14. Avanço do
mar: o 0,6ºc de aquecimento na temperatura global fez com que
o nível médio dos oceanos aumentasse 20cm no último século.
Cada centímetro representa, em média, um metro a menos de praia.
Atualmente, 70% das praias do planeta estão em retração.
15. Menos peixes:
75% das regiões pesqueiros do mundo se encontram além da capacidade
produtiva. Acabou o mito de que os recursos marinhos são inesgotáveis:
88 das 126 espécies de mamíferos marinhos estão ameaçados de
extinção; 90% dos grandes predadores marinhos já estão extintos.
16. Mar morto:
os vazios oceânicos ou “zonas mortas” – áreas desprovidas de
vida devido à falta de oxigênio – duplicaram na última década
e hoje já são 150. Algumas dessas “zonas mortas” chegam a ter
70 mil km2 (quase duas vezes o tamanho do estado do rio de janeiro).
17. Morte dos
corais: os recifes de coral têm um dos ecossistemas mais ricos
do planeta. Em 1992, havíamos aniquilado 10% dos recifes da
terra. Hoje, esse número chega a 30% e continua subindo.
18. Saneamento
básico: em 2000, 300 mil pessoas morreram em conflitos armados.
De acordo com a onu, todo mês morre uma quantidade igual de
pessoas por falta de água ou de saneamento básico. Mais de 2,6
bilhões (40% da população mundial) não têm acesso a saneamento
básico e 1,4 bilhão não têm acesso a água potável.
Vai ficar pior...
1.
Superpopulação: em 2050, seremos 9 bilhões de pessoas vivendo
na terra. Para acompanhar o crescimento populacional, a produção
de alimento terá de ser duas vezes maior que a atual.
2. Calor no
ritmo atual de emissão de gases, a temperatura global vai aumentar
1,4ºc nos próximos 20 anos e 5,8ºc até o fim do século.
3. O mar invade
a terra: por conta disso, o nível dos oceanos pode aumentar
em até 90 centímetros nos próximos cem anos, destruindo várias
praias conhecidas e modificando para sempre o desenho do litoral
do mundo.
4. Poluição:
hoje o ar tem o dobro da quantidade de dióxido de carbono do
que na época da revolução industrial, 250 anos atrás. Como os
gases permanecem na atmosfera por muito tempo, mesmo que as
emissões parassem agora, seriam necessários séculos para que
a atmosfera recuperasse os níveis de 1990.
5. Morte dos
corais: o aquecimento global pode matar todos os recifes de
coral do planeta nos próximos 50 anos. A continuar nesse ritmo,
60% dos corais já estarão mortos em 2030.
6. Sede: se
a população da terra continuar a crescer no ritmo atual, 3 bilhões
de pessoas viverão em locais com seca crônica já em 2015. Nos
próximos 30 anos, dois terços da humanidade, mais de 5 bilhões
de pessoas, sofrerão com a sede.
7. Desmatamento:
mais de 50 mil km2 da floresta amazônica desaparecem todo ano.
Nesse ritmo, em 2050, ela terá desaparecido por completo.
8. Extinção
de animais: se a temperatura global aumentar como previsto,
o mundo perderá até 35% das espécies conhecidas.
9. Fome: os
grãos de milho, trigo e arroz ficam 10% menores a cada 1ºc de
temperatura acima dos 300ºc. Isso fará com que as safras nos
países tropicais sofram redução de 30% em 2050, aumentando em
44% a desnutrição.
10. Miséria:
cada vez mais urbana, em 2030, 2 bilhões de pessoas – o dobro
do número atual – viverão em favelas.
11. Engarrafamentos:
nos anos 90, a frota mundial era de 120 milhões de automóveis.
Em 2000, já tínhamos 500 milhões de carros circulando no planeta.
Em 2010, chegaremos á marca de 1 bilhão, o que significa mais
congestionamentos e mais poluição. Colaborou: Beatriz Ranget.
Fontes: banco
mundial – world development, relatório pnud de desenvolvimento
humano 2004 (programas das nações unidas para o desenvolvimento,
documentos da onu produzidos para o projeto do milênio, world
watch institute, intergovernmental planet on climate change,
atlas da exclusão social no mundo, Márcio Pochman, relatório
2005 do world watch institute.
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