IVETE VAI E VOLTA A PÉ

     Ivete Dolores dos Anjos Amaral, 39 anos, paulistana, filha de baianos de Itabuna, "faz-tudo", moradora do jardim São Jorge, bairro Pirituba, zona norte de São Paulo, anda mais de uma hora para ir ao trabalho e voltar. Faz parte do contingente dos 62 por cento de pobres que, nas grandes capitais brasileiras, nem para condução têm dinheiro. Ivete só emite gás carbônico ao respirar, como todo o mundo.

     Tênis All Star branco, calça jeans colada à coxa, grossa blusa de frio preta, fechada qual camisa-de-força. Um metro e setenta. Corpo esguio, nem parece que teve dois filhos com o ex-marido, com quem viveu por 15 anos: o mais velho, 13 anos; a segunda, 8. Não reclama de andar 35 minutos todo santo dia até a Vila Bonilha, já beirando a marginal Tietê. Motivo: a patroa, dona de uma academia de ginástica, musculação, body pump e natação - onde Ivete é "faz tudo" -, paga por mês 450 reais de salário. Dinheiro para a passagem? Nem pensar. Se não quiser trabalhar todos os dias, ganha diária de 60 reais - vai quando der, recebe assim que termina o serviço. É pegar ou largar.

      Dez da manhã. Ivete deixa a rua Nicanor Nascimento, perto do escadão da Vila Zatt, em direção à academia. Calcula-se que, além dela, há na região metropolitana de São Paulo outros 4,2 milhões de formigas, ou trabalhadores andari­lhos: pessoas que vão a pé para o trabalho. São vários os motivos, da lentidão dos ônibus à curta distância de alguns trajetos. Mas o principal é falta de dinheiro para condução. A Companhia do Metropolitano de São Paulo, Metrô, mapeia o fenômeno das formigas. Caso vá de ônibus, Ivete gastará 4,60 reais por dia, quase 100 reais por mês. Sobrarão pouco mais de 350 reais para sustentar a pequena família.

      Trabalho puxado: lavar nove banheiros, os salões e as janelas de vidro da fachada. Horário a seu critério: se entra às 9, sai às 18, uma hora para descanso e almoço; se preferir, das 14 às 22, sem pausa para refeição.

      Quando cruzamos a praça Iara Iavelberg, em frente da área verde do bairro, Ivete diz que tem esperança de mudar de emprego.

     "Meu irmão me conseguiu uma entrevista no Mercado do Jardim Peri. Assinam a carteira, 650 de salário, convênio médico, condução. Tava tudo certo, só que no dia de entregar meus documentos, tive que ir a uma audiência que trata da separação. Mas vou conseguir coisa melhor. Não sou de ficar esperando algo cair do céu."

     Dez e meia. Passamos a rua Miguel de Castro, já nos aproximamos da Santa Cruz de La Sierra, onde fica a academia. Como faz em dia de chuva?

      "De guarda-chuva, meu filho. Ou pago do meu bolso. Tenho saudade do tempo em que trabalhei no Café do Ponto do Extra da Anhangüera. Lá, a mulher assinou minha carteira duas vezes, pagava condução. Hoje, todo lugar onde tem entrevista, quando falo que tenho 39, dizem que querem uma mais novinha. É difícil achar quem assine carteira."

   

     ANDAR NÃO POLUI
     Os dados são do Relatório Geral de Mobilidade Urbana de 2006, da ANTP - Associação Nacional de Transportes Públicos: mais de um quinto dos 56 milhões de deslocamentos daquele ano nas 486 cidades brasileiras com mais de 60.000 habitantes foram feitos a pé - 20,6 por cento. Caso levemos em conta somente as viagens não-motorizadas, a proporção de viagens a pé salta para 90 por cento - esmagadora maioria se comparado ao total de viagens de bicicleta (veja neste especial a reportagem O Brasil pedala contra a corrente).

      A pesquisa da ANTP diz que os quilômetros percorridos pelos brasileiros a pé respondem por 36,6 por cento de todas as viagens, superando em quase 10 por cento tanto o transporte coletivo (ônibus, perua, trem e metrô) quanto os deslocamentos por carro. Prova de que, desde Belém, onde o passageiro paga 1,50 real de condução por trecho, passagem mais barata do País, até Florianópolis, Santa Catarina, lugar da mais cara tarifa (2,50 reais), o gasto com transporte pesa no bolso do povo - e muito.

      O brasileiro pobre, sobretudo aquele que não tem dinheiro para condução, pode não saber, mas polui menos que a minoria motorizada. Ivete, nossa personagem, também não faz idéia, por exemplo, de que segue à risca aquilo que apregoa o projeto USP Recicla, implantado há três anos pela EACH - Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. Dois pontos:

      1) Se você vai a algum lugar perto de sua casa, prefira ir a pé. Isso evita que mais C02 seja lançado na atmosfera;

      2) Procure colegas que morem perto de você e freqüentem a mesma escola ou local de trabalho para dividir o mesmo veículo. Isso evita emissão de C02 a mais e diminui as chances de congestionamento no trânsito. Além de a divisão de custos também ser algo proveitoso. Ra­cionalize as viagens.

      O exemplo de Ivete e dos mais de quatro milhões de trabalhadores andarilhos da Grande São Paulo, se mais pessoas seguissem, ajudaria a diminuir a poluição do ar - responsável por cân­cer, asma, bronquite, doenças cardiorrespiratórias e até abortos.

      Segundo o Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, o gasto no tratamento dessas doenças chega a 700 milhões de reais por ano só com pacientes da região metro­politana de São Paulo.

      Ivetes pelai...

      Para os trabalhadores de baixa renda, o transporte impõe mais uma restrição: o alto custo com o trajeto casa-trabalho faz com que muitos empregadores limitem suas contratações a candidatos que "dispensam" o dinheiro da condução. Estudo do Itrans, Instituto de Desenvolvimento e Informação em Transporte, ong dedicada à mobilidade urbana, diz:
Para os trabalhadores pobres e desempregados, as formas de lidar com essa dificuldade vão desde mentir sobre o local de residência, passando por pagar do próprio bolso a diferença da passagem, até andar longos trechos a pé.

      Quando a oportunidade de trabalho fica longe, os deslocamentos exigem transporte motorizado, geralmente coletivo, pois veículos particulares são insignificantes entre o povo pobre. Só que aí tem outro problema: esses trabalhadores pouco se valem dos auxílios, entre eles o vale-transporte (em São Paulo, bilhete único) pois, em sua maioria, estão em ocupações informais que não dão direito ao beneficio.

      Afirma o Itrans em outro trecho do estudo Mobilidade e Pobreza, realizado nas regiões me­tropolitanas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Recife:

      O subsídio do vale-transporte não está sendo eficaz para minorar os gastos de transporte do brasileiro pobre. (...) O pagamento da passagem em dinheiro pelos empregadores não atinge a população com renda familiar abaixo de três salários mínimos.

      No Grande Recife, o vale beneficia pouco mais de 10 por cento da população pobre. Resultado: três em cada dez moradores da região metropolitana vão para o trabalho e voltam a pé. Esse tipo de viagem supera o número de deslocamentos motorizados - que sequer correspondem a 15 por cento da população.

      As longas caminhadas substituem trechos que seriam percorridos por outro meio de transporte. Mas o medo de assaltos e a insegurança estão presentes em vários relatos. São comuns relatos em que o participante doa seu vale-transporte a parentes que necessitam percorrer maiores distâncias.

      Outro dado que explica a grande quantidade de trabalhadores andarilhos: 27,5 por cen­to dos usuários do transporte coletivo no Brasil pertencem às classes D e E - mesmo percentual referente à classe B. Quer dizer: a quantidade de pobres que pegam ônibus é idêntica à das classes médias.

      Como os 62,5 por cento restantes dos pobres e muito pobres vão para o trabalho? A pé. Quando muito, de trem - 69,4 por cento dos usuários desse tipo de transporte pertencem às classes D e E. Então, se o assunto é poluição do ar por veículo motorizado, o pobre está fora dessa - ou pelo menos é o menos responsável. Por eliminação, dá para apontar o verdadeiro culpado...

      Basta atentar para um dado obtido em recente pesquisa divulgada pela ong WWF-Brasil, que diz o seguinte: se toda a população mundial ado­tasse o padrão de consumo semelhante ao das classes A e B brasileiras, seriam necessários três planetas para suprir todos os recursos usados.

      Boa parte da elite brasileira, de acordo com a WWF-Brasil, usa carro como único meio de trans­porte. Sem falar em aberrações como 13 por cen­to das pessoas entrevistadas afirmarem que pas­sam mais de 20 minutos no banho. Se reduzissem esse tempo pela metade, diz a ong, economiza­riam água para abastecer, por um dia, uma cidade com mais de seis milhões de habitantes.

Leo Arcoverde é jornalista.
leoarcoverde@carosamigos.com.br