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Poder na Mira
Relatório
também critica abuso de sigilo e discriminação
de movimentos sociais; reforma, porém, recebe elogio
Justiça
do país é machista e ineficaz, diz ONU
IURI DANTAS
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Machista, ineficaz, lento e de notória morosidade, de
difícil acesso, discriminador de movimentos sociais e
com tendência ao nepotismo. Em linhas gerais, é
este o retrato do Poder Judiciário feito pelo relator
especial das Nações Unidas para independência
de juízes e advogados, Leandro Despouy, que visitou o
país em outubro do ano passado e esteve por 13 dias no
Brasil.
O texto do relatório vai
além: critica a falta de controle social nas nomeações
de ministros do Supremo Tribunal Federal, o excesso de sigilo
decretado em processos, a falta de concursos "anônimos"
para juízes -nos quais o examinador não sabe o
nome do candidato-, a falta de conhecimento dos tratados de
direitos humanos por parte dos magistrados, a precariedade da
Defensoria Pública entre outros.
As críticas de Despouy
embasam recomendações que podem se tornar oficiais
da ONU a partir de sexta-feira, quando o documento será
apresentado em Genebra (Suíça). O governo diz
que muitos pontos de vista coincidem, mas os magistrados apontam
diversas incongruências no relatório.
O trabalho de Despouy também
destaca pontos positivos, como algumas iniciativas isoladas
e criativas de melhoria do atendimento à população
e a recente reforma do Judiciário, aprovada pelo Congresso
após mais de uma década de discussões.
"A
reforma constitui um avanço em si mesma, enquanto representa
um sinal de mudança cujo impacto para melhorar o acesso
à prestação judicial terá de ser
monitorado nos próximos anos."
O texto que a Folha teve acesso foi concluído em dezembro
e apresentado ao Itamaraty para avaliação, o que
não significa que Despouy não possa incluir modificações
até a apresentação. Após a leitura
do relatório, o secretário de Reforma do Judiciário,
Sérgio Renault, fará uma apresentação
na ONU em Genebra (Suíça).
Comportamento
O texto descreve problemas gerenciais,
legais e de comportamento dos magistrados brasileiros. Diz,
por exemplo, que "em vários âmbitos domina
uma atitude machista, que tende a culpar as vítimas"
nos casos de violência sexual e doméstica.
Tal atitude do Judiciário
serviria para "re-vitimizar" grupos mais expostos
à violência, como mulheres, crianças e militantes
de movimentos sociais. "Quando se apresentam como vítimas,
os processos tardam décadas sem chegar a uma sentença.
Isso contrasta com o elevado número de ativistas e líderes
de movimentos sociais implicados em processos como acusados",
descreve.
Outro comportamento que vem afetando
a Justiça brasileira, na avaliação do relator,
é o abuso da decretação de sigilo em processos
para salvaguardar a imagem dos envolvidos. "O relator observa
com preocupação o uso excessivo e às vezes
abusivo do sigilo, em especial nas causas contra magistrados,
procuradores, políticos e inclusive processos por violações
de direitos humanos", aponta.
O relatório também
critica a "contratação de familiares em cargos
de confiança" e que as "avaliações
não sejam identificadas", nos concursos para juiz.
São Paulo é criticado no relatório por
não ter instituído a Defensoria Pública
estadual e usar advogados indicados pela OAB
(Ordem dos Advogados do Brasil). Como recomendações,
pede, entre outros, a visita dos relatores especiais sobre a
situação de defensores dos direitos humanos.
Extraído do site:
www.folha.com.br
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