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MEIA AMAZONIA, NÃO!

A FLORESTA NÃO É UMA PEDRA NO SAPATO DO DESENVOLVIMENTO
CAMILA MARTINS
Projeto de lei que autoriza aumentar o desmate é mais um passo para transformar a floresta amazônica, ate o fim do século, em um gigantesco cerrado.
A semana do meio ambiente, organizada no Brasil pelo Greenpeace desde 2000, sempre em junho, traz este ano o tema "Meia Amazônia Não". Responde ao projeto de lei 6424/2005 do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) que, se aprovado, autorizará o desmate de 50% da vegetação nativa em propriedades privadas na Amazônia. Outro desdobramento da lei é a anistia para os incriminados por desmatarem mais que o limite legal de 20% entre 1996 e 2006; e ela permite que áreas desmatadas em determinada região sejam compensadas em outra, trazendo desequilíbrio dos biomas naturais.
Em meio a intensas manifestações em defesa da Amazônia, é uma irresponsabilidade esse desmate. Ou seja, a percentagem de desmatamento - hoje de 17 por cento da floresta, equivalente a quase três vezes o Estado de São Paulo - sobe para 30 por cento apenas com uma assinatura.
Mareio Astrini, coordenador da semana e da Campanha da Amazônia, diz que essa proposta vai na contra-mão do desenvolvimento do país. As chuvas originadas da Amazônia alimentam a agricultura até São Paulo e Rio Grande do Sul, além de encher as reservas das hidrelétricas.
"Quando você desmata uma árvore, prejudica a geração de energia, portanto a competitividade do país em produzir. Compromete também a vantagem climática que temos na produção de grãos e pecuária, carros-chefe da economia."
Toda a discussão, acompanhada pela saída de Marina Silva do ministério do Meio Ambiente, soa negativamente: "A agenda ambiental que Marina achava correta é a mesma que a levou a ser eleita uma das 50 personalidades do mundo que têm mais determinação na defesa do meio ambiente. Quando ela rompe com o governo, é sinal de que este não entende que o meio ambiente é algo importante."
A imagem do Brasil ficou internacionalmente comprometida. Astrini conta que os principais consumidores da soja brasileira impõem uma barreira ambiental: só compram o grão de fazenda que não desmate. Se não, ela deixa de ser fonte de exportação, trazendo prejuízo para o país. Preservação ambiental e desenvolvimento não são antagônicos, mas conseguem se complementar através da sustentabilidade. Fazer a floresta valer mais de pé do que devastada é a chave da questão, o que falta é a iniciativa federal.
"O governo tem um plano de combate ao desmatamento que não conseguiu acionar nem 30% dos projetos. Esse plano está dividido em blocos, e o bloco de desenvolver atividades sustentáveis, que geram lucro, que gera capital para as pessoas que investem na Amazônia, e que ao mesmo tempo preservam a floresta, teve investimento público de 0%.". Isso apesar de que, no caso de madeireiros que deixaram por conta própria de desmatar ilegalmente a floresta e de vender a madeira em seu estado bruto, e passaram a investir em produtos manufaturados com madeira certificada, eles aumentaram seus lucros em cinco vezes.
Um bom negócio para a economia, um bom negócio também para aqueles que habitam a região amazônica. O IDH (índice de desenvolvimento humano) das cidades desmatadas da Amazônia está abaixo do índice total da região norte do país, que por sua vez está abaixo da média nacional. Investir conscientemente nessa região trará melhoria na qualidade de vida dos quase 25 milhões de pessoas que convivem com falta de infra-estrutura, de cuidados médicos e com o trabalho escravo como realidade cotidiana.
Cálculos do Greenpeace revelam que em longo prazo a floresta chegará aos 50% de seu tamanho original e pode se transformar até o final do século em cerrado, de clima seco e baixa fertilidade. Os políticos que defendem essa lei não têm compromisso ético com ninguém, apenas visam à maximização de lucros.
"Temos que entender que a Amazônia não é uma pedra no sapato do desenvolvimento do Brasil, pelo contrário: é fundamental para seu progresso", continua Astrini. "Encontrar aquela tribo indígena que nunca teve contato com a civilização espelha um pouco o que é a região amazônica, um local absolutamente desconhecido que tem uma riqueza, um banco genético impressionante que não existe em nenhum outro lugar do mundo. Tem uma pesquisa que diz que um terço dos princípios ativos patenteados de medicamentos americanos provém de florestas tropicais brasileiras. A gente não conhece o potencial que temos pra gerar conhecimento e tecnologia pra combater doenças com que a gente convive. Acredito que deve ter outras tribos isoladas. A Amazônia é um lugar desconhecido, precisa ser conhecida e explorada, mas com um projeto responsável."
Camila Martins é estudante de Ciências Sociais.
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