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O Brasil pedala contra a corrente

Terceiro produtor mundial, auto-suficiente no suprimento do mercado interno, quase uma bicicleta para cada dois habitantes, o Brasil adota uma política pública anticiclista. Entre outros absurdos, nossos administradores ignoram que o ciclista padrão é o trabalhador assalariado e tratar a bicicleta como veículo destinado ao lazer de uma minoria endinheirada.
Existem vários Brasis, mas, quando o assunto é pedalar, existem dois: o das cidades com menos de 50 mil moradores, onde bicicleta é o principal meio de transporte; e o Brasil das metrópoles saturadas de automotores, insensíveis à solução ciclística para proteger o meio ambiente e melhorar o trânsito.
O Brasil que pedala se parece com Colíder, cidade mato-grossense a 150 quilômetros da capital, Cuiabá. Mais da metade da população usa bicicleta, motocicleta vem em segundo lugar, depois carro. O jovem município de 29 anos tem 28 mil habitantes.
O outro Brasil parece São Paulo, que tem menos de cinco quilômetros de ciclovias integradas à malha urbana e apenas dezenove quilômetros em construção. Descontados os espaços em parques, sobra quase nada, como a ridícula ciclovia da avenida Faria Lima, que liga nada a lugar nenhum, com um poste no meio do caminho.
O país que pedala corresponde a 90 por cento dos municípios, nos quais as "magrelas" servem para passeio, trabalho, estudo e condução de pequenas cargas. Nesses locais, dominam as clássicas Barra Forte e Barra Circular, aquelas com protetor de corrente, páralama, círculo de metal no centro do quadro e garupa - onde, não raro, senhoras e moças de saia vão sentadas de lado. O modelo corresponde a metade das bicicletas vendidas no Brasil.
No país empacado no trânsito, as regiões metropolitanas concentram a maioria da população e o ciclista é um valente que arrisca a pele para ganhar a vida. Na capital paulista, supõe-se que os ciclistas façam 300 mil viagens por dia.

Concentração para a saída da Bicicletada de São Paulo,
em frente da catedral da Sé,
em maio de 2008.
MINISTRO SEM NOÇÃO
Em geral desconsiderado nos planejamentos urbanos, faltam informações sobre o uso de bicicletas no país. O suposto número de viagens ciclísticas em São Paulo deverá ser confirmado no final deste ano. Pesquisa da Prefeitura atualizará os dados de 2002.
Também engatinhamos quanto às chamadas "políticas públicas" e "garantias legais". O Código de Trânsito Brasileiro, em vigor há dez anos, pela primeira vez obrigou os municípios e órgãos rodoviários a promover, com segurança, a circulação cicloviária em ruas, estradas e rodovias. O artigo 58 chega a dar preferência às bicicletas sobre veículos automotores.
Entretanto, durante a vigência do Código, aumentou em quatro vezes o número de ciclistas mortos nas ruas, principalmente nas capitais. Saltou de 326 para 1.515 em 2005, segundo estatística da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. Paraná e Santa Catarina mataram mais.
Iniciativa federal pioneira, o programa Bicicleta Brasil tem quatro anos. Dá nova dimensão ao ciclismo como meio de transporte a ser integrado aos outros circuitos de mobilidade urbana. Apesar das intenções, no lançamento do programa o então ministro das Cidades, Olívio Dutra, derrapou ao comentar a opção automobilística:
"Este modelo, apesar de perverso, gera empregos, produz divisas e proporciona arrecadação."
UMA SOLUÇAO MEIA-SOLA
Num mercado crescente e dividido entre médios e grandes fabricantes, o Brasil produzirá neste ano quase seis milhões de bicicletas. Na nossa frente pedalam a índia, com o dobro, e a China, disparada, com 80 milhões de unidades - mas exporta metade da produção. Proporcionalmente, há quase uma para cada dois brasileiros, com uma frota calculada em 75 milhões de magrelas.
O gigantismo numérico contrasta com dados inexpressivos: apenas um em cada 20 municípios possui ciclovias. A extensão delas? Dois mil e quinhentos quilômetros segundo o ministério das Cidades. E, por incrível que pareça, evoluímos. Há pouco tempo, em 2002, eram somente seiscentos quilômetros.
De fato, é muito menos: raras ciclovias estão totalmente separadas do tráfego motorizado, ou seja, distantes pelo menos 80 centímetros da via principal, com projeto de drenagem independente e outras exigências dos manuais técnicos. O que se vê por aí são "soluções" como a faixa que demarca o espaço das bicicletas junto a ruas e avenidas, a ciclofaixa: a menos segura, onde ocorrem mais acidentes. Trata-se de uma meia-sola, encontrada inclusive em Curitiba e Rio de Janeiro, detentoras das maiores malhas cicloviárias do país.

Interior de São Paulo, região de Itu: o ciclista típico brasileiro,
aquele que usa a bicicleta como meio de transporte.
Durante a vigência do Código de Trânsito Brasileiro,
o número de ciclistas mortos salto de 326 para 1,515.
GIRANDO EM FALSO
A bicicleta, sozinha, não resolve os problemas do trânsito. É preciso incorporá-la de forma inteligente, integrando os vários meios de transporte. Esta "integração modal", para acontecer, requer a construção de bicicletários, estacionamentos cobertos e seguros junto das estações de ônibus, trens, metrôs, balsas, barcas. E o povo quer chegar pedalando até elas. Em Porto Alegre, 84% dos passageiros da Empresa de Trens Urbanos declararam em pesquisa: se houvesse espaço seguro para estacionar, iriam pedalando para as estações.
Mas aqui, em geral, as ciclovias destinam-se ao lazer, apesar do modelo esportivo representar somente 18 por cento das bicicletas vendidas. Daí o erro de planejamento de inúmeros administradores: as iniciativas de integração com o transporte público, quando existem, reforçam a idéia turística de pedalar, quando o perfil real e potencial do ciclista brasileiro é o trabalhador assalariado.
Os metrôs de São Paulo e Rio permitem bicicletas nos vagões somente em feriados e finais de semana. A extensa ciclovia da capital fluminense, 150 quilômetros, fica toda na zona sul, área mais rica. E nas imediações das estações do metrô paulistano existe apenas um bicicletário, com espaço para 100 magrelas - na estação Guilhermina-Esperança. Carros têm a preferência absoluta; para eles, 8.854 vagas.
Nas duas capitais, a integração é um pouquinho melhor com os trens metropolitanos. Existem cinco bicicletários nas estações cariocas, cobertos e vigiados. Em São Paulo, projeto iniciado no ano passado instalou estacionamentos cobertos, iluminados e seguros em 12 dos 87 terminais. São 3.850 vagas.
Com 25 quilômetros de ciclovias, a bela Florianópolis tem seus três bicicletários, recentemente inaugurados ao lado de terminais de ônibus, servindo a outros usos. Em Canasvieiras virou posto de bombeiro; na Lagoa, repartição pública. Enquanto felizes excursionistas curtem a brisa pedalando na orla, o ponto nevrálgico continua sendo a travessia diária de pedestres e ciclistas pela ponte que liga a parte continental da capital catarinense à parte que fica na ilha. São seis pistas de trânsito intenso de veículos. "Chega a ser um descaso", diz Giselle Xavier, professora da Universidade do Estado de Santa Catarina e integrante da ong Viaciclo.
Em Curitiba, os 100 quilômetros de ciclovias dão prioridade à ligação entre os parques. Os trabalhadores, usuários no dia-a-dia, disputam espaço nos corredores exclusivos de ônibus, ou correm sérios riscos vindo de pontos distantes da região metropolitana. No centro da "cidade ecológica" não há sinalização adequada e, em cada esquina sem guia rebaixada, o ciclista leva uma pancada na coluna.
O mais contraditório: segundo pesquisa do Instituto de Planejamento Urbano de Curitiba, pedestres representam o dobro dos usuários das ciclovias nos dias de semana. "É uma pedovia", ironiza o cicloativista Luis Patrício. Os seis bicicletários construídos pela prefeitura permanecem inutilizados e duas licitações para administrá-los não atraíram ninguém. Estão ao lado de parques e a pergunta é: quem vai até eles de bicicleta para estacionar na entrada?
DESAFIO
Imagine uma corrida entre usuários de vários tipos de transporte: um skatista, um corredor, um taxista, um passageiro de ônibus, um motorista de automóvel, um motociclista, um pedestre e cinco tipos de ciclistas: amador, profissional, um com mais de 50 anos, o quarto que usa bicicleta dobrável e ônibus e o quinto com bicicleta sem marcha. Todos saíram às 18 horas do mesmo ponto central em Curitiba para verificar quem chegaria primeiro à prefeitura. Os quesitos considerados: velocidade, poluição, gasto o de energia e ruído. Pelo segundo ano consecutivo, ciclistas venceram o Desafio Intermodal, realizado em maio de 2008. Quatro deles, junto com um skatista, ocuparam os cinco primeiros lugares.
O Desafio Intermodal é uma das iniciativas que tentam demonstrar o óbvio: não dá para planejar a cidade descartando quem pedala. Outra ação digna de nota são as Bicicletadas. O mote é "um carro a menos". Em várias capitais brasileiras eles se reúnem no fim do mês, embolando com carros, ônibus e motos por ruas e avenidas. E ainda distribuem panfletos, pintam o chão. Não tem jeito: ciclista que quer espaço bate de frente com o apocalipse motorizado.
Marcos Zibordi é jornalista.
mzibordi@ hotmail_com |