O planeta começa na nossa casa

     Neste curto espaço, gostaria de mencionar dois fatores que contribuem para a profunda e irreversível crise ambiental com a qual a humanidade se defronta, os quais podem inspirar for­mas de enfrentamento da crise.

      "Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai..." sobre os peixes, as aves, os animais e as plantas. O livro do Gêne­sis indicava o caminho que Descartes, mais de 1.700 anos depois, repisaria. Para ele, somos "mestres e possuidores da natureza". Pela cul­tura, pela ciência e pela vida urbana contemporânea nos afastamos profundamente da natureza. Não nos vemos como mergulhados no meio ambiente, mas exteriores a ele. Durante milênios, esse profundo divórcio não trouxe conseqüências drásticas sobre o meio ambiente e a humanidade, senão localmente.

      O segundo fator, propiciado justamente pela afirmação filosófica da nossa superioridade, é representado pelo florescimento do capitalismo mercantil e industrial, associado a sucessivas e progressivamente aceleradas invenções, a co­meçar pela máquina a vapor. Saúdam-se sucessivas "revoluções" tecnológicas. A última seria a do conhecimento, base de um capitalismo cujo valor agregado se apóia sobre o imaterial.

      O primeiro problema é que se remunera mais o conhecimento que permitiu o computador ou o celular de última geração do que a máquina em si, mas essa continua existindo com seus compostos de petróleo e minerais e, embutidas nela, água e energia. Segundo problema: a obsolescência dos produtos, que os torna des­cartáveis, faz parte hoje das concepções de pro­dução e de mercado. Novos carros e novos mo­delos chegam ao mercado num tempo cada vez mais curto e lá vão mais recursos naturais, mais lixo e contaminação.

     QUEM BANCA O CUSTO DA INCERTEZA?
     Será que o infortúnio do mundo fará a fortuna do Brasil? Nosso crescimento não fará nossa desgraça amanhã? O mundo, em particular os países industrializados, necessita dos nossos minerais, a começar pela bauxita e pelo ferro. Produzimos para eles aço, alumínio, celulose, carvão vegetal, mas, sobretudo, através desses produtos, fornecemos energia, água e solo, que lhes fazem falta, limitando assim, junto com leis mais estritas e o custo da mão de obra, sua ex­pansão industrial.

     A Alcoa começa a extrair bauxita em Juruti, Baixo Amazonas. Quer abrir uma nova fábrica de alumínio, mas isso requer energia. Sem pro­blema: o ministro da Energia já disse que a hi­drelétrica de Belo Monte é um projeto irrever­sível. O lago que seria formado pela barragem diminuiu de tamanho, mas a vazão durante o verão será muito pouca, sem contar que não le­varam em conta o aumento do desmatamento das margens dos afluentes e das nascentes do Xingu e as mudanças climáticas.

     Quem vai bancar o custo da incerteza da via­bilidade econômica? Quem acredita que não ha­verá outras barragens construídas ao longo da bacia no futuro?

     Há países que proíbem a instalação de indústrias contaminantes nas suas baías. Baías da Guanabara, de Sepetiba, de São Marcos, em São Luís do Maranhão e outras acolhem sem reserva pólos petroquímicos, fábricas de aço e de alumínio e amanhã usinas termelétricas. É mais bara­to e mais perto dos portos. O que pesam a popu­lação e a qualidade de vida frente a isso?

     AGROCOMBUSTÍVEIS VERSUS AGROPECUÁRIA?
     A permanência do latifúndio, mesmo que reciclado na figura da grande empresa rural, e a arrogância dos representantes políticos dos grandes produtores rurais não podem fa­zer esquecer que não é o produtor que defi­ne os rumos da agricultura e que lucra mais com a sua produção. A atividade produtiva perdeu faz tempo sua centralidade em proveito das grandes corporações industriais e comer­ciais a montante e a jusante da produção, na área de insumos químicos, máquinas, sementes, beneficiamento e comercialização da produção. Elas também se beneficiam da destrui­ção do cerrado e da floresta amazônica. Nem se pode dizer, como o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, que a produção de alimentos justifica a destruição de árvores, pois especulação sobre os alimentos e o milho americano para etanol comanda boa parte da suposta es­cassez e o encarecimento dos alimentos.

      Agrocombustíveis representam um paradoxo. Ditos renováveis, permitem satisfazer a boa consciência. Reduziriam emissões de CO2, mas contribuem para manter a mesma matriz de transporte individual e de mercadorias. Sa­tisfazem a boa consciência, mas permitem que o sistema de produção industrial aludido acima continue intacto. Dificilmente essa produ­ção escapará da lógica destrutiva.

      Vale assinalar que a preservação da floresta amazônica seria, segundo cientistas, uma con­tribuição muito mais importante para o clima do que trocar gasolina e outros combustíveis fósseis por biocombustível.

      Se o problema está na nossa relação com a natureza e no modelo de produção e de consumo capitalista (o produtivismo soviético não diferia muito nesse sentido), a solução é mudar os para­digmas filosóficos e econômicos. Mas uma revo­lução das mentalidades e das sociedades não se decreta. O acompanhamento realista da destruição do território brasileiro e da diminuição gra­dativa da qualidade de vida (para não falar de po­pulações rurais e tradicionais que desaparecem do mapa por obra do progresso) levaria ao pessimismo se não fosse a efervescência atual.

      Todos nós hoje, fora os cínicos, somos ambientalistas, queiramos ou não. Se cada um começa a sentir de perto os impactos da crise ambiental na sua vida, é também na sua vida, no chão, localmente, que pode iniciar novas maneiras de viver, de se relacionar com o meio ambiente e de cuidar da oiko-nomia, da economia da nossa casa, o planeta.

Jean Pierre Leroy é assessor da Fase - Solidariedade e Educação