Precisamos nos salvar de nós mesmos

     Ambientalista norte-americano diz que o "evangelho do consumo" espalha-se, agravando os problemas do planeta.

     Em artigo em inglês intitulado O evangelho do consumo e o futuro melhor que deixamos para trás, publicado em http://www.orionma­gazine.org/index.php/articles/article/2962/, número de maio-junho da revista Orion, o ambientalista americano Jeffrey Kaplan conta que em 1929 os empresários começaram a ficar alarmados porque o mercado, nos Estados Unidos, es­tava ficando saturado:

      "Carros dominavam as ruas e a maioria dos lares urbanos tinham luzes elétricas, ferros de passar elétricos e aspiradores de pó."

      Mais adiante escreve Kaplan, atuante na região da Bay Area, Califórnia: "Os industriais receavam que os hábitos frugais da maioria das famílias americanas seriam difíceis de romper", e havia "o fato de que a capacidade industrial de produzir bens parecia estar crescendo a um ritmo maior do que a sensação das pessoas de que necessitavam deles".

      Então, em 1929, Charles Kettering, diretor da General Motors Research, escreveu um artigo intitulado Mantenha insatisfeito o consumidor, não no sentido de fabricar maus produtos, mas de definir uma mudança estratégica para a in­dústria americana: preencher necessidades hu­manas básicas para criar novas necessidades.

      Afinal, em 1927 o jornal The New York Times já falava em "saturação das necessidades" e a Secretaria do Trabalho dos Estados Unidos já havia notado que as indústrias têxteis do país poderiam produzir em seis meses todas as roupas necessárias para um ano e que apenas 14 por cento das fábricas de calçados poderiam produzir todos os sapatos necessários para os americanos. A revista Business Nation previu naquele mesmo 1927 que todas as necessidades mundiais poderiam ser em breve preenchidas com "três dias de trabalho por semana". O presidente da Associação Nacional de Fabricantes, John Edgerton, declarou então:

      "Sou a favor de tudo que possa tornar o tra­balho mais agradável, mas contra tudo que pos­sa reduzir ainda mais sua importância. A ênfase deve ser posta no trabalho - mais trabalho e tra­balho melhor. Nada fomenta o radicalismo mais do que a infelicidade, a não ser o ócio."
A Comissão Presidencial sobre Mudanças Econômicas Recentes, nomeada pelo então presidente Herbert Hoover, anotava:

"Por meio da publicidade e outros instru­mentos promocionais (...) foi dado um impulso significativo à produção, liberando capital que de outro modo ficaria empatado. (...) Economicamente temos diante de nós um campo ilimitado; há novas necessidades que vão abrir caminho para infinitas novas necessidades, assim que sejam satisfeitas."

     HÁ TRABALHO E RIQUEZA PARA TODOS
     E aqui o ambientalista Jeffrey Kaplan chega ao centro de seu argumento:

      "As máquinas podem economizar trabalho, mas só se ficarem ociosas quando possuímos o suficiente daquilo que podem produzir. Em outras palavras, o maquinário nos oferece uma oportunidade de trabalhar menos, oportunidade que, como sociedade, escolhemos não aproveitar. Ao invés disso, deixamos que os donos dessas máquinas definissem o objetivo delas: não a redução do trabalho, mas `produtividade mais alta' e com isso o imperativo de consumir virtualmente tudo que o maquinário pode concebivelmente produzir."

     Continua Kaplan:
     "Em 2005, o gasto residencial per capita (em dólares ajustados pela inflação) era 12 vezes maior do que o de 1929, enquanto o gasto per capita em bens duráveis - carros, eletrodomésticos - era 32 vezes maior. Enquanto isso, em 2000, o casal mé­dio com filhos trabalhava quase 500 horas a mais por ano do que em 1979. E segundo relatórios do Banco da Reserva Federal em 2004 e 2005, 40 por cento das famílias americanas gastam mais do que ganham. O lar médio deve 18.654 dólares, não incluída a hipoteca" (lembrando que as dívidas hipotecárias se transformaram em 2008 naquilo que o investidor George Soros chama de "a maior crise do capitalismo desde a Segunda Guerra Mundial"). Afirma Kaplan:

      "No entanto, poderíamos trabalhar e gastar muito menos e ainda assim viver uma vida bem confortável."

      A conclusão que podemos tirar é que, ainda por cima, os problemas ambientais seriam mui­to menores se o "evangelho do consumo" fosse abandonado - mas ao invés disso ele se está espalhando pelo mundo todo. Kaplan:

      "Se quisermos salvar a Terra, precisamos também nos salvar de nós mesmos. Podemos começar partilhando o trabalho e a riqueza. Po­demos simplesmente descobrir que há abun­dância de trabalho e de riqueza suficiente para seguirmos em frente."

Tradução e Resumo Renato Pompeu - jornalista.